Nascido no final da década de 70, faço parte da geração coca-cola, do atari, do walkman e de tantas outras revoluções pelas quais a sociedade passou até chegar nos dias de hoje. Foi somente em 1997, ao ingressar na faculdade de Psicologia, que comecei a usar o computador para fins estritamente acadêmicos. Naquela época, me lembro bem, eram poucos que tinham a "máquina" em suas casas, e quem a tinha era visto como um "senhor na terra de vassalos". A internet ainda engatinhava, tão-somente para arquivamento, processamento e transmissão de dados institucionais. Twitter, Facebook, Google, MSN??? Nada disso existia e as pessoas se contentavam com um celular que atingisse uma cobertura digna do sinal.
Não preciso dizer quão velozes e aterradoras foram as mudanças que experimentei durante minha graduação! Começaram a surgir conexões, provedores, servidores, usuários e, finalmente, internautas.
Ainda na faculdade tive uma aula sobre a influência da internet na vida das pessoas. Obviamente, como todo marinheiro de primeira viagem, não levei muito a sério as discussões da professora (apesar de todos os seus esforços para tornar a aula interessante!). Isto não quer dizer que não prestava atenção ou que não me empenhava. Simplesmente, não percebia a revolução que se originava naquele exato momento. A professora, uma mulher chegando aos cinqüenta, percebia de longe as mudanças que estariam por vir. Eu já fazia parte da revolução, sem saber.
Mas, afinal, o que a internet, a revolução digital e o mundo virtual têm a ver com Carreiras e Profissões?
Ora, são muitas as interseções entre o novo paradigma da virtualidade e o mercado de trabalho. A começar pela imensa gama de empregos criados a partir da necessidade de especialização tecnológica e conhecimento técnico de computadores e redes de transmissão de dados. E as relações entre mercado de trabalho e mundo digital não pararam de crescer. Da criação de novos empregos, passamos pela globalização da informação, pelo acesso imediato às notícias ao redor do mundo, pelas salas de bate-papo, aos sítios e domínios onde encontra-se de tudo - de empresas anunciando serviços e contratando mão-de-obra via internet, à perfils pessoais e instituições de ensino localizadas nos confins do mundo.
É óbvia, portanto, a relação transformadora entre internet e mercado de trabalho.
No entanto, como toda revolução ou ação transformadora, a velocidade das mudanças acarretadas pela digitalização do mundo trouxe conseqüências para a vida das pessoas. Hoje não é fácil viver sem celular, quem dirá sem um perfil no Facebook. A pessoa que não se encontra num desses domínios é logo tratada como antiquada ou, no pior dos casos, como anti-social. Ou seja, ou você adere ou você adere! Parece não haver opção para aqueles mais adeptos do tête à tête ou do corpo a corpo para resolver algum assunto.
Tempo e espaço - variáveis condicionantes da vida desde que o ser humano se entende por gente - ganharam elasticidade e um potencial de virtualidade nunca vistos antes. Essa elasticidade nos permitiu interagir em diferentes níveis de relacionamento com pessoas em espaços e tempos distintos dos nossos. Este potencial de virtualidade nos impulsionou em diferentes direções, em diferentes ritmos e freqüências que procuram conciliar vida pessoal, profissional, familiar e social num mesmo tempo e espaço.
Certamente, são muitas as micro-revoluções causadas pelo advento da digitalização e da virtualidade da vida - de suas variáveis condicionantes, tempo e espaço.
Seus efeitos sobre a vida profissional são muitos e dignos de uma reflexão pormenorizada:
1. Com o desenvolvimento de novas tecnologias e ferramentas de trabalho, aumentaram as opções de trabalho e de cursos oferecidos pelas instituições de ensino, causando grande confusão e ansiedade nos milhares de "marinheiros de primeira viagem" que ingressam em uma faculdade.
2. A velocidade de compartilhamento de idéias e a facilidade de obter informações colaboram para um progressivo isolamento das pessoas, uma vez que não é mais necessário sair de casa para achar as coisas.
3. A constante atualização dos serviços e produtos digitalizados opera uma reação em cadeia de consumo desenfreado e sentimento de menos valia caso a pessoa não possua o último modelo de celular ou não compartilhe dos mesmos aplicativos lançados no mercado.
4. A expansão do mundo virtual configurou uma nova modalidade de sucesso profissional: você pode vender um serviço ou produto por R$1,00, se você atingir o segmento certo na internet estará milionário do dia para a noite. Isto é, criou-se a modalidade do "sucesso imediato tangível".
5. Cada vez mais as pessoas procuram trabalhos intelectualizados, os quais dependem em grande parte do raciocínio abstrato e lógico-racional, interagindo com máquinas no lugar de pessoas, e deixando de lado os aspectos afetivos e relacionais envolvidos no trabalho.
São inúmeros os efeitos da virtualidade e da digitalização da sociedade. Longe de mim querer demonizar ou criticar levianamente uma revolução da qual faço parte e apoio quase integralmente: tenho perfil no Facebook, participo do Twitter e faço uso constante do Skype para me comunicar com amigos do estrangeiro.
Sem dúvida, o que precisamos observar é o equilíbrio entre malefícios e benefícios originados pelo uso dessas tecnologias. Uma criança que não brinca com as outras por se divertir somente na frente da televisão ou dos jogos do PlayStation apresentará, de certo, um comportamento introvertido e, quem sabe, um certo desconforto em situações de interação social.
No entanto, um dos efeitos que mais me chama a atenção é a escolha profissional.
Eu sempre encontrei profundo prazer e um sentimento de realização inigualável em trabalhos manuais. Rendia-me grande satisfação ver algo construído a partir de idéias e fragmentos de memória. Os sonhos sempre permearam minha vida, trazendo imagens e idéias que hoje ainda procuro desvendar.
Um desses sonhos é o trabalho em vinhedos, onde o contato e a relação com a terra e seus ciclos dá uma nova perspectiva sobre tempo e espaço.
Hoje a vida passa corrida nos grandes centros urbanos, onde aglomeram-se milhões de pessoas perseguindo o "sonho" do sucesso, da realização profissional e pessoal. No entanto, perdem o contato com o tempo-espaço interno de suas vidas e vivem o ritmo da sociedade, das empresas, do acúmulo de riquezas a qualquer preço. Mesmo que seja o de suas vidas.
Devemos, portanto, procurar o equilíbrio entre os ritmos, entre o interior e o exterior, entre o si mesmo e o outro. Equilíbrio intangível, inalcançável, é sonho e objetivo. Para saber mais sobre como alcançá-lo, é simples: converse com alguém, olho no olho.
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